Our Fears

São as imagens que dão vida aos textos, e os textos que dão movimentos às imagens. E rodam todos como karaminholas na kuka da Krika.



terça-feira, 2 de novembro de 2004

A placa caída

A placa caída



Quando eu soube que estava grávida, fui invadida por um temor.

Sabia que minha vida mudaria, não me achei pronta para todas aquelas mudanças. Confesso, envergonhada, que quis me livrar do feto. Porém, não imaginas a alegria que me deu segurar o Lucas em meus braços após 4 horas de um parto difícil.

Pedi para ficar com meu bebê a sós, enquanto o amamentava, percorria sua pele macia e delicada com as pontas dos meus dedos. Como meu bebê era vermelho e tranqüilo.

Ainda é difícil pensar em doar as coisas do meu filho tão amado, cada vez que entro em seu quarto uma dor aguda atravessa meu coração.

Sinto falta do seu sorriso fácil, até do seu choro no meio da noite, e mais ainda dos seus primeiros passos, dele se apoiando na barra da minha saia, dizendo sua primeira palavra: “mamã”.

O meu Lucas era lindo, aquele sorriso maroto depois de estilhaçar meus vasos no chão, puxando as toalhas, me desmontava.

Nada tinha tanto valor para mim quanto seu sorriso.

Foi muito doloroso para mim, saber que meu filho foi atropelado, e ver seu pequeno corpo coberto por um lençol.
Tiveram que me separar do meu filho morto com violência, eles me sedaram. A minha melhor parte foi enterrada com o Lucas. Sobrou um vazio tão profundo na minha vida.

Eu não vi, mas noticiaram nos jornais, o motorista assassino tinha 16 anos, estava drogado, e atropelou primeiro a placa que indicava que haviam crianças, e devia circular devagar.

Ele atropelou mais do que a placa, ele atropelou meu filho, meu Lucas que tanto amei. O tal motorista arrancou o que eu tinha de mais precioso.



terça-feira, 12 de outubro de 2004

As borboletas

As borboletas

Foto de Salvatore Spano

“Livre agora. Não é a toa que o mundo parece um lugar melhor cada vez que conhece meu sorriso.” (Sabedoria da Mentira)

Um ensejo dito por outra pessoa como se fosse eu, que traduz muito de mim.

O sorriso que sempre foi minha marca floresceu, e com o passar de algum tempo, simplesmente desapareceu.

O mundo parecia não ter mais encantos, as torres ruíram, pessoas morreram, mulheres agarraram-se aos corpos de seus filhos desmembrados pelo terror. As pessoas deixaram de se entender.

Eu desliguei a TV, e fui dormir sobre as minhas lágrimas, não pela dor do mundo, mas pela minha dor tão menor e tão mais importante. Doíam todas as entranhas, mesmo que eu estivesse vazia.

Até que o Sol pela minúscula fresta da minha janela teimou em entrar, fustigando minha face molhada, cansada e desamparada. Levantei para ajustar as cortinas, e pela fresta avistei pequenas borboletas, eram azuis, amarelas, laranjas, brancas. E dançavam sobre as cinzas de um mundo destruído, convidando à reconstrução.

Senti-me imensamente egoísta. Se até as borboletas que morrem no esplendor de sua beleza festejam, por que eu haveria de morrer triste?


Foto de Claudio Calvani

Por que o mundo deveria morrer triste? Por que não deixar algo de sincero para lembrar a nossa existência? Por que não desafiar todos os nãos? E, por que não sorrir e deixar o mundo melhor, como fazem as borboletas?

domingo, 26 de setembro de 2004

O que é o amor?

O que é o amor?

Um sentimento de significados diferentes para cada um.
Um querer bem, uma vontade de proteger e afastar todo o mal.
É o carinho sem fim que uma mãe nutre por seu filho.
É o abraço no momento da dor.
É o beijo roubado e tímido.



Ames aquele que te tocas tão profundamente, que desejas mesmo em sonhos, partilhar com ele teus sentimentos e emoções.
Queiras ter filhos com ele, acordar e tê-lo ao alcance dos teus dedos, para encostar teu nariz na sua pele e sentir o perfume do suor do corpo que te amas.

Tenhas para ti a certeza que sua respiração sempre ofega quando celebram seu amor, tornando-os um só, envolvendo seus corpos e almas em uma névoa de respirações ofegantes, enxergues através dela seus sorrisos e o olhar de agradecimento por estarem mais uma vez juntos, partilhando suas essências.

Ames a ele tanto, que possas protegê-lo, envolvê-lo nos teus braços, e seguí-lo por todos os recantos do planeta, queiras partilhar com ele inclusive tuas idéias mais insignificantes.

Queiras ser sua amante, amiga, protetora, protegida, parte dele.

E sempre desejarão o mesmo: ser parte um do outro.

segunda-feira, 6 de setembro de 2004

Domingo no Parque

Domingo no Parque



Eu vejo corpos.
Corpos que movem para cá e para lá.
É o bebê que sorri na cestinha da bicicleta do pai, é o vovô que radicaliza nos patins, é a moça magra que passeia com seu cachorro igualmente magro, é o senhor que caminha com três cachorros que se enroscam nas cordinhas em que são levados, é o moço bonitinho que passeia na bicicleta, é a moça que corre.
São corpos magros, gordos, bonitos, feios e estranhos.
Mas são corpos que se movem.
Enquanto, dentro da minha imobilidade só posso observá-los.

terça-feira, 31 de agosto de 2004

O perdão

O perdão



Hoje ele me bateu novamente. Sempre que ele bebe, ele me bate.

Desde que mamãe morreu, que papai bebe e me bate. Deixei de ser sua filhinha amada, para ser uma imprestável.

Depois da bebedeira, quando ele vê o quanto me machucou, ele cai de joelhos e me pede perdão. Eu sei que ele está verdadeiramente arrependido, mas sei também que ele vai me bater novamente quando estiver embriagado.

Mas o perdão faz com que eu tenha esperança de que ele nunca mais vai beber.

Ainda lembro do sermão do Padre, sobre Jesus ter dito: "Acautelai-vos. Se teu irmão pecar contra ti, repreende-o; se ele se arrepender, perdoa-lhe. Se, por sete vezes no dia, pecar contra ti e, sete vezes, vier ter contigo, dizendo: Estou arrependido, perdoa-lhe" (Lucas 17:3-4).

quarta-feira, 11 de agosto de 2004

Meu ídolo

Meu ídolo



- Que gato!
- Deixa-me ver. Aí meu Deus, que homem lindo!
- Sou louca por ele.
- Eu também.
- Eu faria qualquer coisa por ele.
- Eu também.
- Já pensou nesse homem lindo, sussurrando meu nome no meu ouvido?
- Na verdade, pensei nele me beijando inteira.
- O que vocês duas estão fazendo, com essa revista em plena aula?
- Ih...
- Dê-me isso, e voltem ao seu dever. No fim da aula eu devolvo a vocês.
- Sim, professora.

terça-feira, 3 de agosto de 2004

As flores que você nunca me deu

As flores que você nunca me deu



Não tem graça deitar para dormir e não encontrar segredos deixados embaixo do travesseiro.

Se eu pudesse queimar este lugar que costumávamos chamar de lar, se você não tivesse me feito chorar, e tivesse contado porque está me deixando, não teria rasgado meu coração.

Ainda é difícil me livrar de suas lembranças, não porque você tenha me feito mais feliz, tenha me dado mais prazer do que os outros, mas porque você se plantou no meu coração, iludindo-me com suas mentiras bem engendradas.

Nem o cachorro do vizinho late como costumava latir.

Algum tarólogo disse que posso atraí-lo novamente, e irei encontrar um outro alguém em você. Mais mentiras, você não tem nem coração, quem dirá uma alma.

segunda-feira, 26 de julho de 2004

A sapatilha de ballet

 A sapatilha de ballet



Completo hoje 46 anos de idade, ainda me lembro do meu aniversário de 5 anos, aquele em que ganhei uma caixa branca com laço cor-de-rosa, era minha primeira sapatilha de ballet. Foi tia Graça quem me deu, havia me matriculado no curso de ballet.

Foi ali que começou toda a minha trajetória na dança, foi pela dança que viajei pelo mundo todo. Conheci meu primeiro marido, meu primeiro amante, tive minha primeira desilusão amorosa.

Fui aplaudida de pé por nobres e famosos, mas fui acometida por um mal, recuso-me a dizer o nome desta doença que faz o mundo rodar e escurecer, e faz com que eu perca os sentidos durante a dança. Minha carreira acabou!

Gostaria que tia Graça ainda estivesse viva, para me presentear com a sapatilha de ballet, e eu voltar à ser aplaudida como a graciosa bailarina que eu fui.

sexta-feira, 23 de julho de 2004

A lágrima

A lágrima
 


Oh, pequena! Dói-me ver-te com teu olhar triste. Procuro por aquele brilho que hipnotizava no teu olhar, mas está apagado.

Dizem que homem não chora, mas chorei no dia que te perguntei o que tinhas, e não respondeste, direcionou-me teu olhar tristonho, e no canto do teu olho vi aquela pequena lágrima em forma de pérola nascer, e traçar uma trilha no teu rosto, não resisti a apará-la antes que gotejasse do teu queixo.

Tu correste para longe, deixando-me com tua lágrima aparada em meu dedo, elevado no ar, como se eu pudesse aparar tua dor, e elevar teu ânimo.

Mas, intimamente, eu sabia que não podia, embora desejasse tirar de ti toda a dor, só para ver o brilho do teu olhar novamente.

terça-feira, 20 de julho de 2004

Desfeitos um para o outro

Desfeitos um para o outro


 
Ele um pouco mais de 1,90 m.
Ela um pouco mais de 1,60 m.
Ele pessimista.
Ela otimista.
Ele abusado sexualmente no início da adolescência pelo pai.
Ela, em sua indolência, abandonada pelo pai.
Ele sentindo-se culpado pelo abuso sofrido.
Ela sentindo-se culpada pelo abandono ocorrido.
Ele expiando sua culpa através do sexo bizarro.
Ela expiando sua culpa tentando resgatá-lo.
Ele desejando sexualmente sua mãe.
Ela precisando do carinho de sua mãe.
Ele suplicando por humilhação.
Ela dando-lhe o coração.
Ele é bom, mas não quer acreditar nisso.
Ela tenta fazer disso seu compromisso.
Ele sabe que ela pode salvá-lo.
Ela sabe que pode amá-lo.
Ele não quer ser salvo ou amado.
Ela desiste após vê-lo frustrado.  
  


quinta-feira, 15 de julho de 2004

Simplicidade do Coração

Simplicidade do Coração



Lia continuava a ler o bilhete que recebera, junto com a caixinha com bolas terapêuticas chinesas, que fora deixada na soleira da porta:

"O sábio nada faz sem simplicidade, ele
dirige com nobreza e a ninguém prejudica".

Lao Tsé

Quando o telefone tocou, e ela atendeu, ainda sem tirar o olho do bilhete, mas logo o interesse no bilhete se esvaiu:

“Oi, Lia! É o Nuno. Gostou das bolas chinesas?”

“Então foi você quem deixou a caixinha, o bilhete trazia apenas uma citação de Lao Tse”.

“Sim. Eu passei por aí, mas você não estava, eu sei que eu devia ligar antes, mas eu estava ansioso para vê-la. Desejava lhe agradecer pelo seu carinho, minha menina. Finalmente estou me sentindo reintegrado à vida e devo isso a você, que teve paciência para me ouvir, e insistiu para que eu saísse de casa para exposições de arte e concertos. Eu não tinha me dado conta que estava fortalecido, até esta manhã, enquanto eu fazia a barba, eu vi um homem renascido e feliz. Muito obrigado, minha amiga Lia”.

segunda-feira, 12 de julho de 2004

As violetas são testemunhas

As violetas são testemunhas



A campainha toca, Bella atende, e, Carlos entra e senta-se no sofá, sem dizer qualquer palavra. Bella pergunta: “—O que você está fazendo aqui?”

Carlos bate a mão no assento ao seu lado, como sinal para que ela se sente ali: “—Não consigo tirá-la dos meus pensamentos, sonho com você. Sabe, aquele beijo mexeu muito comigo, não entendo porque você fica me evitando. Quero namorar com você, será que posso?”

Eles conversaram longamente a respeito, e Carlos pediu sua mão em namoro ao seu pai.

Hoje em dia, é muito difícil acontecer isso, mas nos idos dos anos 80, ainda se praticava esse ato bárbaro, onde o rapaz tinha que enfrentar toda a ira do pai que achava que sua filha era muito menina para namorar. E, a diferença de idade entre Carlos e Bella era grande, eram 7 anos. Carlos fazia residência num hospital em São Paulo como pediatra, e Bella prestaria o vestibular para Administração de Empresas. O Seu Fernando não gostou nem um pouco da idéia, mas acabou cedendo, ele próprio foi se aconselhar com a irmã, que anos antes havia explicado a Bella sobre a sexualidade.

E ela como é uma pessoa aberta, disse a ele que Bella já não era mais uma menina, e que além de tudo Carlos era um bom moço, de família conhecida, e bem intencionado, senão não pediria a mão de Bella em namoro, namoraria escondido.

Isso revolucionou o modo de pensar do Seu Fernando, ele ainda via Bella como sua menina, e ela havia se tornado uma bela mulher. Sua irmã tinha mesmo razão, estava na hora de ter um namoro sério se assim ela o quisesse.

Seu Fernando, para não perder o controle da situação, impôs horários e tudo o mais, para que Carlos e Bella namorassem.

Ele realmente ficaria horrorizado com essa estória de “ficar”, que existe hoje em dia, não existe mais namoro, existe o “ficar”, e ele é bem abrangente, vai desde trocar alguns beijinhos a ter relações sexuais, seria uma espécie de namoro por apenas um dia ou uma noite, não se têm compromissos. É comum vermos grupos de jovens onde uma garota já ficou com todos os garotos da turma, e isso começa cedo, em média com 12 anos.

Quem vai querer namorar sério se pode ficar com muitas pessoas? Mas isso traz alguns problemas sérios para a sociedade, os garotos por não terem experiência, nem dinheiro para comprar camisinhas, acabam engravidando suas “ficantes”, ou contraindo doenças venéreas muito cedo.

Isso porque passar dos beijinhos para algo mais excitante, é muito fácil, mas como obrigar que jovens de 12 a 15 anos se casem? Existem muitas meninas em pleno século XXI, perdendo sua juventude e privilégio de serem jovens atuantes e apreciadas, para serem mães. Ser mãe é uma dádiva, toda mulher por mais revolucionária que seja sonha com isso, mas exige uma certa maturidade, é preciso viver para ensinar alguém a viver.

E um filho, não é algo que se apague da vida de alguém. Fazer sexo é uma coisa muito boa, mas é preciso escolher o momento e as pessoas certas para isso. E, à parte toda a praticidade que o “ficar” encerra em si, namorar, no real sentido da palavra, é muito bom. Trocar sorrisos, trocar cumplicidade, trocar beijos, trocar carinhos, com uma pessoa especial é o melhor que existe.

Por isso, não devemos julgar mal o Seu Fernando, pois ele queria que sua filha vivesse o mesmo tipo de amor que ele vivera com Dona Iolanda.

Se Bella era uma pessoa correta e dedicada, Carlos era provocante e atrevido. Certa manhã de sábado, Seu Fernando foi ao clube, e Carlos foi ao apartamento de Bella.

Bella abriu a porta e ele já foi beijando-a, trancou a porta, pegou-a nos braço e saiu a procura do seu quarto. Entre os beijos, Bella ainda conseguiu perguntar: “—Carlos, o que está acontecendo?”

Ele a pôs na cama, ajoelhando-se no chão, sorriu, beijou-a delicadamente, enquanto a beijava, sua mão corria por baixo do seu vestido, Bella o empurrou: “—Pára! O que está fazendo?”.

Ele sorriu e perguntou: “—Não gosta?”. Ela nem respondeu e ele recomeçou a beijá-la, deitando-se por cima dela. Bella amoleceu, estava gostando dos beijos.

Carlos ajoelha-se sobre ela, tira a camiseta atira num canto do quarto, volta a beijá-la, Bella nunca tinha contemplado o peito nu de seu namorado, estava sentindo sua pele quente, seu beijos eram excitantes, sobretudo quando beijava suas orelhas, isso a enlouquecia, ele levantou-se baixou o zíper da calça, tirou a calça, depois tirou a cueca, arremessando aos cantos do quarto. Ela ficou parada sem ação ele voltou a beijá-la, com as mãos entrelaçadas em seus cabelos negros.

Bella acorda com o som do rádio, era seu pai que chegava, abraçado a ela estava Carlos, ela olhou para o despertador, eram 8 horas da noite, ela levantou-se e trancou a porta do quarto. Carlos acordou, ela fez sinal para que ele ficasse quieto.

Carlos a chamou para a cama, nesse momento ela se deu conta que estava nua, deitou-se ao lado de Carlos na cama de solteiro, e ficaram agarradinhos um ao outro, Carlos a acalmou com beijos e sussurrou no seu ouvido: “—Eu ti amo”.

Ela se acalmou e adormeceu, quando acordou já era manhã, Carlos não estava no quarto, ela viu um bilhete embaixo do despertador: “Amor, você faz de mim o homem mais feliz do mundo, adorei ser o primeiro homem de sua vida, agora minha meta é ser o único. Vou pedí-la em casamento ao seu pai. Com muito amor, e sempre seu, Cacá.”

Ela se levanta, vestindo-se rapidamente e corre para a cozinha, seu pai está tomando café: “—Bom dia Bella, foi dormir cedo ontem, o que aconteceu?”

Bella responde: “—Estava com dor de cabeça pai, e como foi lá no clube?”

Ela estava aliviada, por um instante pensou que Carlos fosse falar com seu pai naquela manhã mesmo, seu pai ficaria muito decepcionado com ela, pois tinha lhe dado confiança, e ela a estava traindo.

Voltou para o seu quarto releu o bilhete, beijou-o e guardou em uma caixinha no guarda-roupa, onde guardava coisas especiais.

sexta-feira, 9 de julho de 2004

Doce infância

Doce infância



Isabella ou Bella, como todos a chamam, tem olhos brilhantes, sorriso encantador, e é daquelas pessoas que riem com todos os músculos da face, quando está feliz, todos sabem, quando está triste, também. Sua mãe, Dona Iolanda, sempre prende seus cabelos negros num rabo de cavalo, que mal está pronto e já sai balançando nas costas de Bella, que corre em direção ao portão.

Dona Iolanda, grita: “—Bella! Tome seu café, sem isso não pode ir brincar.”

Bella volta, toma seu café dá um beijinho em Dona Iolanda, e vai correndo para a rua, é sempre assim, se Dona Iolanda não a lembra do seu café da manhã, Bella simplesmente se esquece disso.

Mas, o que tem de tão bom na rua? Hoje em dia não existe nada de bom na rua, mas quando Bellinha era criança, nos anos 70, não existia vídeo game, internet, brinquedos que falam e andam sozinhos, mas também não existiam assaltos à mão armada, era um tempo que a palavra de uma pessoa era digna de confiança. E as crianças podiam brincar na rua sem sofrerem qualquer tipo de ameaça.

Não tinha asfalto na rua de Bella, mas também as pessoas usavam bicicletas para irem aos lugares, o pai de Bellinha, o Seu Fernando ia de bicicleta trabalhar na fábrica de refrigerantes onde chefiava as equipes de trabalho. Não tinham tantas máquinas naquela época.

Bellinha tinha pais adoráveis, o Seu Fernando e a Dona Iolanda eram muito carinhosos, Bellinha não tinha irmãos, sua mãe perdeu seu irmãozinho no parto, e não pode mais ter filhos.

O melhor amigo de Bella era o Rafael, um garoto muito danado, estava sempre subindo em árvores, puxando o rabo de cavalo dela, dando-lhe beliscões. Mas Bella era adorável até quando estava zangada com Rafa.

quinta-feira, 8 de julho de 2004

Livro no tapete

Livro no tapete



Acabei de chegar em casa, praticamente desabei no sofá, faltam-me forças.

As roupas que atiraste pela casa, estão lá, inclusive meu livro de poemas, que atiraste ao chão para me provocar.

Sabes muito bem que tenho ciúmes do meu livro, trato-o quase como a um bebê.

Saí de casa ainda com os olhos inchados pelo pranto, usando óculos escuro num dia nublado, em luto pela tua fúria sem propósito.

Por quê nunca usas as palavras para te expressar? Estás sempre arremessando algo, socando os móveis, chutando o pneu do teu carro. Soltando seus urros animalescos e nada mais.

Passaste dos limites atirando Drummond ao chão, sabias que me atingiria desta maneira. Não ligaria se rasgasses meu melhor vestido, como já fizeste, por conta desse teu ciúme exagerado, mas atirar Drummond ao chão, foi como pisotear em todos os meus princípios.

Sei que tenho que decidir, colocar-te para fora da minha vida, mas sinto-me cansada para isso, preciso dormir. Amanhã decido.

segunda-feira, 5 de julho de 2004

Há vaga para o travesseiro ao lado

Há vaga para o travesseiro ao lado



“Cá se fazem, cá se pagam”, parece que ainda ouço minha amiga Zui (ela não gosta de ser chamada de Zuleide).

Não gosto de ouvir as minhas amigas nas questões do coração, elas dizem que a sub-raça (os homens), não merece amor ou consideração. E não adianta argumentar que não quero que o pai dos meus filhos seja um submisso.

“Não sejas boba. Deves aprender a fazer o espécime primitivo pensar que ele é o “cabeça”, a sub-raça adora pensar que tem o poder, e então tu podes ser o “pescoço” e girá-lo para onde quiseres.”

Por quê todas elas têm uma solução para tudo, e vivem os mesmos dramas que eu? Zui foi abandonada há pouco. A diferença é que ela divulga que há vaga no travesseiro ao lado, e sempre preenche a vaga, enquanto eu me recolho e vou curtir o luto, e chorar minhas mágoas.

terça-feira, 29 de junho de 2004

A bússola

A bússola



Lá estava ela sentada na cama, abrindo e fechando uma bússola, revendo toda a sua vida a cada movimento de abrir e fechar. Aos pés da cama um par de mãozinhas agarra a grade, e dois olhinhos se elevam, e uma vozinha familiar lhe chama a atenção:
- Mãe, o que é isso na sua mão?
Ela vê seu tesouro, sua filhinha curiosa, e abre seu melhor sorriso.
- Oi, Bellinha! Não a vi chegar. Isso aqui é uma bússola.
Ela ajuda seu tesouro a subir na cama para sentar ao seu lado, mal a menina se senta, e já dispara mais uma pergunta:
- Pra quê serve?
- Para orientar uma pessoa qual o rumo tomar, quando navega ou faz uma excursão na mata, por exemplo.
Bellinha mal ouve a resposta, e já vem com outra pergunta:
- Você vai viajar?
Ela afaga os cabelos da menina, pensando no quanto queria ver sua pequena se formando na universidade.
- Não, meu amor. Digamos que a mamãe precisa sempre encontrar sua Bellinha. Cadê meu beijo, sua tagarelinha?
A menina se enrosca no pescoço da mãe e dá-lhe um beijo.
- Agora sim, mamãe ganhou o dia.
E quem disse que Bellinha estava satisfeita com as perguntas, sempre tinha muitas perguntas:
- Mãe quem deu essa bússola pra você?
Os pensamentos da mãe de Bellinha voam para o dia em que seu irmão lhe deu a bússola.
- Seu tio, ele me deu quando fui morar sozinha. Disse que era para eu sempre poder encontrar o caminho de casa, se eu precisasse voltar.
- E você voltou?
- Eu voltava todos os domingos para comer a macarronada da vovó. A segunda melhor do mundo!
- Quem é a primeira?
Ela tinha uma satisfação em ensinar sua garotinha:
- O certo é: “de quem é a primeira?”, meu amor. Que pergunta! Lógico que é a minha! Você não se acha uma garotinha de sorte?
- Eu gosto da macarronada da vovó também.
- Que bom que tem um “também”, aí. Senta aqui mais perto da mamãe.
Ela aproveitou para apertar sua Bellinha contra o peito, já sentindo saudades. Ela estava ciente que era uma cirurgia relativamente simples, mas não tem quem não se assuste com o diagnóstico de tumor, mesmo sendo benigno. Não tinha como não pensar que de uma hora para outra poderia ter que se separar de sua Bellinha, e não vê-la crescer. Sabia que seu marido, que sempre foi um pai e um marido maravilhoso, cuidaria bem dela, mas mesmo assim não queria ficar longe da filhinha. Da morte nunca teve medo, só queria mais tempo com a filha. Esperava que Deus ouvisse suas preces.
- Por que sua mão está tremendo, mãe?
- Porque a mamãe é boba, deste tamanho e ainda tem medo de médico.
- É boba mesmo! Ele só vai pedir pra você abrir a boca assim: “aaaaaaaaaah”, aí ele vai colocar um pauzinho, vai olhar o que você comeu e vai dizer que você cresceu.
- Só isso?
- É.
- Você não tem medo?
- Não.
- Você tem razão. A mamãe é muito boba.

domingo, 27 de junho de 2004

Por quê existem karaminholas na kuka da Krika?

Por quê existem karaminholas na kuka da Krika?

Talvez porque ela adore desafios. O David, lá das terras de além mar, fez-me o desafio outro dia: criar um blog com uma nova proposta. Cá está ele!

Não será tão intimista como a Kuka da Krika, neste as imagens darão cor aos textos, e os textos darão movimento às imagens. Conseguir manter esta proposta será outro desafio. Que me puxe a orelha, aqueles que notarem que abandonei meu desafio!

O primeiro post é dedicado ao padrinho do blog. Espero que gostes, dindinho!

Vamos deixar de conversa fiada, e colocar as karaminholas para fora?


Gosto de você



No dia em que me deste a bonequinha com caraminholas na cuca, não disseste nada.

Entrou-me na sala todo hesitante, cara de menino que aprontou das suas, olhava-me de soslaio e com cerimônia.

Eu que estava lendo as aventuras de um templário, num romance qualquer, e deitada com as pernas cruzadas no encosto do sofá, levantei meus olhos, dei-lhe meu sorriso que-bom-que-você-chegou.

Sempre me perguntaste como eu conseguia me concentrar na leitura numa posição tão desconfortável, talvez lhe fosse desconfortável saber que eu não sou nem um pouco convencional, mas nesse dia não disseste nada.

Estendeu-me o braço, entregou-me a caixinha, seu rosto não tinha expressão, e foi-se embora. Naquele momento eu nem sabia o que fazer. Abri a caixinha meio confusa. Dentro estava a bonequinha com caraminholas na cuca, um sorriso pintado no rosto, uma flor colada na roupa, um cartãozinho onde se lia: “Gosto de você!”.

Eu ainda estava confusa, levantei com cuidado a bonequinha, encontrei um papel dobrado. À medida que fui abrindo meu coração sobressaltava, lá estava tua letra, mas tinha algo de estranho, a escrita quase tinha furado o papel, parecia um bilhete escrito em fúria, as letras se arrastavam quase engolindo uma às outras. Li e estremeci. Chamei teu nome baixinho, depois gritei com toda a força dos meus pulmões. Quando me pus de pé, a sala toda rodopiou, fui ao chão. Não sei quanto tempo fiquei ali desmaiada.

O bilhete dizia: “Em muito tempo na minha vida, não me sentia tão feliz, você trouxe luz à minha vida. Eu a amei no primeiro momento em que a vi. Mas, hoje descobri que não posso me separar da vida triste e sombria que eu tinha antes. Aconteceram coisas que nem me atrevo a contar. Você nunca entenderia, você consegue simplificar tudo, mas nunca vai simplificar meus medos e minhas dores. Adeus.”

Ficou-me apenas a bonequinha de caraminholas na cuca.
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Viver é atuação principal, o resto a gente faz por prazer, diversão ou necessidade.